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Texto: ROSINHA CONTA A HISTÓRIA DA ÁRVORE

José Mauro de Vasconcelos, Rosinha Minha Canoa.
[Citado no postal A CHUVA RECLINOU-SE PARA UM LADO, 7 Janeiro 2008 - Categoria A ÁGUA].

.
Rosinha concentrou-se, pensou um bocadinho, e começou a história...
[...]


A chuva riu.
A semente perguntou, amedrontada:
– Como é que a senhora sabe de tudo?
– Ora, meu bem, eu sou uma velha chuva, cansada de ser chuva.
– Para onde a senhora vai agora?
– Agora? Vou, juntamente com as minhas irmãs, criar uma nascente que, com o correr dos anos, virará um grande rio. Durante muito tempo serei esse rio, até que um arco-íris me beba e me transforme de novo em chuva...
– E a senhora fica sendo chuva a vida inteira?
A gota d'água sentiu-se triste e respondeu, com a voz emocionada:
– Um animal poderá me engolir e, então, tudo se acabará. Depois disso não poderei dizer mais nada. Volto então aos meus velhos pensamentos: Não sei nunca por que nasci e nem para onde irei. Afinal, nós todos somos assim...
A chuva calou-se.
– A senhora deve estar muito cansada, não?
A semente havia notado que a chuva chorava e tentava disfarçar, enquanto respondia:
– Um pouquinho, mas agora posso dormir umas horicas antes de prosseguir.
– E eu?
– Que é isso, meu bem? Você está tremendo toda!
– Ah! Dona Chuva, estou com tanto medo de nascer...
– Bobagem... Vamos, eu ajudo!
Sua angústia renasceu e sua voz saiu meio trêmula:
– Mas eu não sei por onde nascer...
Os dedos de Dona Chuva apalparam seu dorso e pararam em determinado ponto.
– Deve ser aqui. A casca está bem fininha; vou amolecer mais e você fará também um esforço...
Não disse mais nada. Foi contendo a respiração. Mais e mais. E ainda mais. Sentia que ia estourar. Devia estar quase roxa de tanto esforço. Alguma coisa se lhe abalava por dentro; deviam ser os bracinhos de folha.
A chuva disse novamente:
– Tente outra vez.
Forçou o ar de dentro e uma grande dor a estremeceu. Parecia que se rachava a casca, de alto a baixo. A ponta de um de seus braços projetou-se para fora.
– Ai! Que dor!... Ui! Que frio!...
A chuva riu grosso:
– É assim mesmo. Agora o outro bracinho.
Foi puxando o outro braço da folha e dessa vez já não sentiu doer tanto. E, mesmo, a vida fora da casca assemelhava-se a uma nova aventura; sentiu, então, curiosa sensação.
O contato de seu corpinho fraco, miudinho, com a terra úmida enchia-lhe a vida de um novo encanto.
A chuva bocejou:
– Viu, minha filha? Não é assim tão difícil nascer.
– Mas dói um pouco...
– Se não doesse a vida não teria preço. Agora trate de caminhar. Você precisa sair, andar, perfurar a distância que existe até ao outro lado. E como você não tem prática, vai levar todo o resto desta noite... Agora, adeus... vou cochilar.
A chuva reclinou-se para um lado e antes de dormir de todo ainda falou com ternura:
– Você vai achar a vida linda... sempre depois que chove...
Bocejou mais forte e parece que nem escutou todo o agradecimento do seu coração vegetal:
– Obrigada, Dona Chuva...

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