[Complemento do postal A PRAIA DAS AVENCAS, 22 Fevereiro 2008].
.
A informação aqui transcrita foi publicada no portal Educom, do qual é propriedade e responsabilidade (texto e imagens), mas tem estado inacessível há já vários meses [http://web.educom.pt/avencas/]: Este sítio encontra-se em manutenção devido a um problema técnico grave e inesperado.
Pelo interesse do seu conteúdo como complemento do postal sobre a praia das Avencas (na altura optei por inserir uma ligação em vez de citar), apresento aqui a transcrição de uma parte seleccionada dessa informação, na expectativa de que possa voltar a estar disponível online.
.
AVENCAS ONLINE
I - EXPOSIÇÃO - Sudoeste.
II - RELEVO - A praia é limitada por uma falésia de rochas sedimentares granulares, seguida de pequena faixa de areal ou calhaus rolados, sendo a zona intertidal uma plataforma rochosa predominantemente calcária, por vezes com degraus.
.
Esquerda: Zona inter-marés com substrato rochoso. ... Direita: Adiantum sp - Avencas.
.
III – TIPOS DE POÇAS OU ENCLAVES
Wave pools raras. São poças formadas pelas ondas que enchem cavidades que ficam comunicação com o mar. Estas poças vão secando, mas podem ter uma comunidade de algas verdes flageladas e protozoários, alguns moluscos gastrópodes e crustáceos copépodes. Geralmente estas poças secam ficando uma camada de cristais de sal.
As tide pools são as mais frequentes. Quanto maiores são, mais estáveis se apresentam em termos físicos – temperatura da água, salinidade, pH, etc. Assim, constituem enclaves representativos em termos de biodiversidade das zonas mais profundas. Nas maiores, mantém-se sempre um volume mínimo de água, nas mais pequenas a água pode evaporar antes da próxima maré alta.
Tide pool com um comunidade diversificada (ouriços-do-mar, anémonas, algas calcárias, etc.).
.
IV – ZONA INTERMARÉS
Nesta zona, apenas alguns metros separam um ambiente terrestre de um marinha. Nesta área, os factores condicionantes do ambiente variam muito mais que em qualquer outro ecossistema. O hidrodinamismo, a temperatura e a imersão alternando com a emersão, tornam as zonas intertidais um óptimo recurso para o estudo da biodiversidade em todas as suas vertentes.
A Praia das Avencas na baixa-mar, vendo-se bem a língua estreita de areia e o fundo rochoso de declive suave, que só fica a descoberto na baixa-mar.
.
V – OUTROS FACTORES
O Hidrodinamismo é pouco acentuado devido ao pequeno declive da praia.
A influência da zona estuarina, a água de escorrência da falésia e a acção do homem causam uma alteração nos teores de salinidade, matéria orgânica e nitritos.
Hidrodinamismo.
.
VI - HISTÓRIAS DAS PRAIAS DA PAREDE
A concentração de iodo e a exposição aos raios solares tornaram as praias da parede famosas no tratamento de doenças ósseas. A 31 de Julho de 1904 foi inaugurado o Hospital Ortopédico, excelente exemplo de arquitectura hospitalar projectado pelo arquitecto Rosendo Carvalheira.
A Parede tem três praias vastas, longas, mas pobres em areal. Praias negras, estranhas descarnadas do seu corpo doirado, cobertas de lajes enormes, polidas pelas ondas onde rolam seixos grossos e cascalho duro, agressivos dos pés descalços - praias chamadas das Avencas, Central e do Sanatório. Sobre elas corre uma esplanada, a meio da riba, abaixo da Avenida Marginal, excelente para o passeio dos banhistas.
Existiam ainda as praias da Vigia e da Bafureira.
A configuração da linha de costa foi alterada com a construção da Estrada Marginal sobre as dunas e a vegetação que as consolidava. Os movimentos da marés foram removendo o restante areal e assim a praia das Saínhas (em Carcavelos) bem como a do Sanatório e a da Vigia desapareceram.
Na praia Central funcionava uma fossa que captava os esgotos da povoação: Gaba-se ainda a Parede de que as águas das suas praias são cristalinas e puras. Para a maravilha contribui a natureza e o Homem. É que, na verdade, nenhuma imundice escorre da povoação para o seu mar sagrado. Um aparelho moderno, chamado 'fossa deluidora' é ali o Moloch horrendo de toda a matéria vil que a umidade repele e costuma atirar às profundidades do oceano. O aparelho tem as suas instalações junto da praia, num recinto escavado sob a Avenida Marginal, é accionado a electricidade, e contribui, realmente, para a sanidade da povoação, das suas praias, das águas do seu mar.
A Praia da Avencas, por possuir uma zona intertidal rochosa, é importante para o equilíbrio ambiental desta zona.
O Prof. Carlos Almaça estudou esta praia em 1957 (cf. Almaça), tendo concluído que as espécies recolhidas com mais frequência eram: ouriço do mar, polvo, mexilhões, camarões, caranguejos, navalheiras, sapateiras e santolas e também algas. Essas colheitas contribuíram para a alteração e degradação da biodiversidade.
Em 1973, outro estudo do Prof. Carlos Almaça revelou uma degradação considerável das espécies que até aí existiam e mesmo a extinção de algumas. O autor propõe várias medidas como a interdição de colheitas com fins científicos ou alimentares, a delimitação de um sector para estudos científicos, o desvio dos esgotos na praia, assim como o estabelecimento de um plano de recuperação da mesma.
De 1973 para cá, a tendência para a degradação da situação existente foi-se agravando cada vez mais, mesmo com as obras de saneamento da Costa do Estoril.
.
Zonação em ecossistemas marinhos:
Zonação significa a distribuição delimitada de uma população, que atinge um maior número de indivíduos no substrato que lhe é mais favorável, podendo formar uma autêntica cintura paralela ao nível do mar e com uma altura característica.
A distribuição de seres vivos na zona de marés não é feita ao acaso, há factores físico-químicos e também biológicos (como a competição e predação), que são responsáveis pela distribuição das comunidades costeiras.
A temperatura da água e a luz determinam a distribuição dos seres vivos à escala mundial. A altura da maré, o movimento da água, a exposição às ondas, a dessecação, a estrutura e estabilidade dos sedimentos, determinam por sua vez as comunidades bentoicas à escala regional e local.
Actualmente, a teoria da zonação divide uma praia rochosa em zonas distintas, que são definidas pelos organismos que contêm.
O limite superior da distribuição é definido pelo limite de tolerância aos factores do ambiente.
O limite inferior é definido pela competição com outras populações.
Há portanto uma distribuição teórica, definida pelos limites de tolerância a factores físicos e químicos, e uma distribuição real, que é condicionada pelas interacções com outros seres vivos.
.
Esquema de zonação da ZONA LITORAL:
Zona supralitoral – Logo a seguir ao domínio terrestre, recebe gotas de água das ondas mas muito raramente fica coberta de água.
Na Praia das Avencas, a zona supralitoral é constituída por falésia seguida por uma zona arenosa e algumas rochas, cobertas por com Verrucaria maura, um líquen com aspecto de alcatrão, e ainda por algas cianofíceas que conferem uma cor acinzentada às rochas. Também se encontram colónias de Melaraphe neritoides, um minúsculo molusco gastrópode.
.
Esquerda: Rochas cobertas por líquen Verrucaria maura e alga verde Enteromorpha.
Direita: Cracas e moluscos Melaraphe neritoides.
No limite inferior da zona supralitoral, vivem organismos marinhos adaptados a exposições prolongadas ao ar, sendo apenas submersos durante as marés dos equinócios.
Nesta zona, encontramos sobre as rochas muitos gastrópodes do género Melaraphe e também Cracas. Esta zona é visitada por caranguejos, pulgas do mar, aracnídeos, aves e mamíferos.
.
Zona mediolitoral – também designada por eulitoral. Esta zona está sujeita a uma emersão e uma imersão alternadas, duas vezes por dia, cuja amplitude varia com as fases da lua e com o perfil de costa.
A zonação é bem visível na distribuição das macro algas e dos animais sésseis e hemi-sésseis, estando os menos sensíveis na zona superior e os mais sensíveis na zona inferior.
Característicos desta zona são populações de Lichina pygmaea, líquen de cor negra que limita superiormente o andar, Chthamalus montagui e Chthamalus stellatus, vulgo cracas, presentes em toda a extensão do andar.
As lapas são de três espécies diferentes, Patella aspera, Patella vulgata e Patella depressa. Também se encontram muitos gastrópodes Gibbula umbilicalis (burriés) e Monodonta lineata (caramujos).
É também representativa desta zona a espécie Actinia equinia, cnidário de cor vermelho muito escuro ou verde azeitona.
.
Esquerda: Líquen Lichina pygmaea e cracas. ... Direita: Vários exemplares da Família Trochidae (burriés e caramujos).
Na parte mais baixa do médio litoral existem colónias extensas de Mytilus galloprovincialis (mexilhões), também se vendo Pollicipes pollicipes (perceves).
Este andar é delimitado inferiormente por Lithophylum tortuosum, uma alga calcária.
Nos enclaves, onde as condições são semelhantes às existentes no andar infralitoral, a rocha está forrada pela alga calcária Lithophyllum incrustans. Outros organismos que aqui se podem observar são Paracentrotus lividus (Ouriço-do-mar), Anemonia sulcata (anémona verde e rosa) e Hymeniacidon sanguínea, uma esponja laranja. Nos enclaves onde não há ouriços, pode-se observar outra alga calcária, de cor rosada, Corallina elongata.
.
Esquerda: Alga calcária Lithophylum tortuosum. ... Direita: Poça com Actinia equina (pequena anémona), Mytilus galloprovincialis (Mexilhão) e Corallina elongata (alga calcária).
.
Zona infralitoral - Neste andar apenas uma pequena parte fica a descoberto na maré baixa. Característicos das zonas mais superficiais são a alga Lithophyllum incrustans, o Ouriço-do-mar Paracentrotus lividus, a anémona Anemonia sulcata, a esponja Hymeniacidon sanguinea e o Mexilhão Mytilus galloprovincialis. As algas Corallina elongata e Lithophyllum tortuosum limitam este andar superiormente.
.
Esquerda: Cracas Chthamalus stellatus e esponjas Hymeniacidon sanguinea.
Direita: Ouriços Paracentrotus lividus e anémona Anemonia sulcata.
O limite inferior deste andar é caracterizado pela presença de laminárias (algas castanhas) e algas vermelhas, aparecendo já organismos de zonas profundas.
.
- Páginas ESPÉCIES - REINO PROTISTA - REINO FUNGI - REINO ANIMALIA
Alguns seres vivos que se podem encontrar e a sua classificação [segundo Whittaker 1968]:
.
I - REINO PROTISTA
ALGAS VERDES - CHLOROPHYTA
Ulva lactuca – alga verde, tenra, de talo achatado, que cobre grandes extensões de rocha. Também se chama «alface do mar». É uma alga oportunista, tal como a alga Enteromorpha sp, cujo habitat depende da água de escorrência ou mesmo dos esgotos, que baixam a salinidade da água.
Codium sp - alga verde escura, aveludada, composta de talo tubular que se ramifica dicotomicamente.
Ulva lactuca numa poça.
.
ALGAS CASTANHAS - PHAEOPHYTA
Fucus sp – alga castanha, de talo forte ramificado dicotomicamente.
.
ALGAS VERMELHAS - RHODOPHYTA
Corallina, alga calcária com um talo de cor rosada, composto por uma sucessão de artículos. A justaposição dos indivíduos permite a retenção de água durante a baixa mar possibilitando a co-existência de outros organismos infralitorais.
Litophylum turtuosum, alga calcária encrostante de talo esbranquiçado formado por laminas verticais imbricadas.
Litophylum incrustans, alga calcária encrostante de cor rosada ou violácea. O talo apresenta-se em crostas que ao confluírem formam cristas elevadas e onduladas, características.
.
Esquerda: Alga calcária Corallina. ... Direita: Alga calcária Litophylum incrustans forrando uma poça com uma anémoma e mexilhões.
.
.
II - REINO FUNGI
Os fungos ocorrem em associações simbióticas com algas, os líquenes.
Verrucaria maura, líquen negro intimamente ligado ao substrato, lembrando alcatrão derramado na rocha [imagem na zona supralitoral].
Lichinia liquenoides, líquen fruticuloso de cor negra muito escura.
.
.
II - REINO ANIMALIA
PHYLUM PORIFERA
Encontram-se Esponjas Hymeniacidon sanguinea (de cor laranja, notando-se bem o ósculo), formando colónias extensas sobre as rochas.
.
PHYLUM CNIDARIA
.
Esquerda: Anémona Anemonia sulcata - tentáculos não retrácteis, cor verde com pontas rosa, formando grandes colónias em poças perto da franja sublitoral.
Direita: Actinia equina - corpo e tentáculos castanho escuro ou verde azeitona, base com bordo azul, tentáculos curtos e retrácteis. Geralmente mais pequena do que a Anémona, forma também grandes colónias.
.
PHYLUM ANNELLIDA
Animais segmentados, mais difíceis de localizar porque vivem enterrados. Muitas vezes, podem-se ver vestígios da passagem de anelídeos na areia de uma poça e observar os habitáculos que constroem com grãos de areia.
.
PHYLUM MOLUSCA
· Classe POLYPLACOPHORA
Debaixo das rochas, observa-se um pequeno molusco vulgarmente designado por Chiton, que pertence à classe Polyplacophora por ter o corpo protegido por uma concha de 8 placas.
São animais de corpo elíptico, muito pequenos, cercados por margem carnuda. Pé achatado.
· Classe CEFALOPODA
Os polvos, Octopus vulgaris, podem ser encontrados em wave pools.
· Classe GASTEROPODA
Muitos seres desta classe, como o Caramujo Monodonta lineata, o Burrié Gibbula umbilicalis (gastrópode com concha univalve, pé em forma de palmilha, tentáculos sensitivos), a Lapa (Género Patella), concha cónica fixa solidamente ao substrato. Colónias extensas em todas as zonas.
· Classe BIVALVIA
Grandes colónias de mexilhão, da espécie Mytilus galloprovincialis, ocupam fácies da alga Corallina elongata. Este bivalve de cor negra, localizado em zonas de grande hidrodinamismo, suporta bem a poluição, podendo inclusivamente sobreviver em áreas portuárias.
.
PHYLUM ARTROPODA
.
Esquerda: Caranguejo numa rocha, ordem Decapoda.
Direita: Camarão Palaemon serratus, um crustáceo da Classe Malacostraca.
Cracas Chthamalus stellatus, subclasse Cirripedia, animais sésseis, exosqueleto formado por 6 placas. Neste local esta espécie predomina sobre a C. montagui.
.
PHYLUM EQUINODERMATA
.
Esquerda: Estrelas do mar da espécie Asterina gibbosa. Estes animais encontram-se escondidos sob as rochas.
Direita: Ofiurídeos, pequenos animais com habitat sob as rochas, encontram-se frequentemente associados aos Ouriços-do-mar.
Ouriços-do-mar, Paracentrotus lividus, alojam-se em cavidades da rocha para resistir ao embate das ondas. Alimentam-se de algas fotófilas, pelo que nas zonas onde se encontram apenas fica a descoberto o revestimento da rocha formado pela alga Lithophyllum incrustans.
.
PHYLUM CORDATA
Sub-filo VERTEBRATA. Super-classe PISCIS. Classe OSTEICHTHYES – peixes ósseos.
.
Esquerda: Belennius sp - peixes sem escamas, com corpos de secção arredondada, que têm a capacidade de aguentar algum tempo fora de água, porque os opérculos permanecem fechados nessa situação, mantendo as guelras húmidas.
Direita: Peixe-rei Atherina presbyter - banda prateada ao longo dos flancos, dorso esverdeado e ventre prateado.
.
Esta página foi realizada por Isabel Cristina Raposo e Joana d'Orey Capucho, no âmbito da disciplina de Biodiversidade, Mestrado de Ciências da Terra e da Vida para o Ensino, Faculdade de Ciências de Lisboa.
Colaboraram nesta página João Correia de Freitas (UARTE), Teresa Castillo e Susana Tavares (professoras estagiárias da Esc. Sec. Fernando Lopes Graça), e Patrícia Melanie Esteves (aluna da Esc. Sec. da Cidadela).
As fotografias são de: Isabel Cristina Raposo, João Correia de Freitas, Joana d'Orey Capucho, Patrícia Melanie Esteves, Susana Tavares e Teresa Castillo.
.

.
A Imagem da Paisagem, 23 Janeiro 2010.