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Categoria: versão integral: TEXTOS CITADOS

O TEJO É MAIS BELO QUE O RIO QUE CORRE PELA MINHA ALDEIA

am.ma 18/08/0000 @ 00:00

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios.
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro, Poema incluído em O Guardador de Rebanhos. Tom Jobim musicou este Poema.

[Citado no postal VELAS DESFRALDADAS NO TEJO, 18 Agosto 2008 - Categoria O LITORAL].

BARCA BELA

am.ma 05/07/0000 @ 00:00

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!

Almeida Garrett, Folhas Caídas. 1853.

[Citado no postal PESCADOR DA BARCA BELA, 5 Julho 2008 - Categoria O LITORAL].

SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

am.ma 12/06/0000 @ 00:00

IV

Antes, porém que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, proeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut piscis invicem se devorantes: «Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros». Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá: para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos, e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? (Job, XIX-22): «Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?» Quereis ver um Job destes?

Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está sentenciado nem executado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorant plebem meam, ut cibum panis (Salmo XIII-4). Cuidais, diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade? E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama a maldade, como se não houvera outra no mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe! Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Parece-vos bem isto, peixes? [...]

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes - IV (proferido em 1654 em S. Luís do Maranhão - Brasil).

[Citado no postal VÉSPERA DE SANTO ANTÓNIO, 12 Junho 2008 - Categoria Outras Imagens].

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS

am.ma 10/06/0000 @ 00:00

Dai-nos Senhor a paz que Vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos destes seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a paz que Vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos Vosso mandamento
Para que venha a nós o Vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que Vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que Vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual. 1972.

[Citado no postal HERÓIS DO MAR, 10 Junho 2008 - Categoria O PATRIMÓNIO].

ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA

am.ma 10/06/0000 @ 00:00

XX

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto não consente.

XXI

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o céu me dá, que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela estão os Íncolas primeiros.

Luís de Camões, Os Lusíadas - Canto Terceiro. 1572.

[Citado no postal HERÓIS DO MAR, 10 Junho 2008 - Categoria O PATRIMÓNIO].

VERDES SÃO OS CAMPOS

am.ma 07/04/0000 @ 00:00

A este mote alheio:

Verdes são os campos
de cor de limão:
assi são os olhos
do meu coração.

VOLTAS

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes;
d' ervas vos mantendes
que trás o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Gado,que pasceis,
co contentamento,
vosso mantimento
não no entendeis:
isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.

Luís de Camões, Voltas a um mote alheio (in Lírica).

[Citado no postal VERDES SÃO, 7 Abril 2008 - Categoria PARQUES E JARDINS].

POEMA ECOLÓGICO

am.ma 03/03/0000 @ 00:00

[Documento divulgado pelas Nações Unidas em 1976, para as comemorações do Dia Mundial do Ambiente, 5 de Junho].

Em 1854, o Grande Chefe Branco de Washington fez uma oferta de compra de uma grande extensão de terras índias, prometendo criar uma «reserva» para o povo indígena.
A resposta do Chefe Seattle, aqui publicada na sua totalidade, tem sido descrita como a declaração mais bela e mais profunda que jamais se fez sobre o ambiente.

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Como se pode comprar ou vender o firmamento, ou ainda o calor da terra? Tal ideia é-nos desconhecida.
Se não somos donos da frescura do ar nem do fulgor das águas, como poderão vocês comprá-los?

Cada parcela desta terra é sagrada para o meu povo.
Cada brilhante mata de pinheiros, cada grão de areia nas praias, cada gota de orvalho nos escuros bosques, cada outeiro e até o zumbido de cada insecto é sagrado para a memória e para o passado do meu povo. A seiva que circula nas veias das árvores leva consigo a memória dos peles vermelhas.

Os mortos do Homem Branco esquecem-se do seu país de origem quando empreendem as suas viagens no meio das estrelas; ao contrário, os nossos mortos nunca podem esquecer-se desta bondosa terra pois ela é a mãe dos Peles Vermelhas.
Somos parte da terra e do mesmo modo ela é parte de nós próprios. As flores perfumadas são nossa irmãs, o veado, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos; as rochas escarpadas, os húmidos prados, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencemos à mesma família.

Por tudo isto, quando o Grande Chefe de Washington nos envia a mensagem de que quer comprar as nossas terras, está a pedir-nos demasiado. Também o Grande Chefe diz que nos reservará um lugar em que possamos viver confortavelmente uns com os outros. Ele se converterá então em nosso pai e nós em seus filhos. Por esta razão consideraremos a sua oferta de comprar as nossas terras. Isto não é fácil, já que esta terra é sagrada para nós.

A água cristalina que corre nos rios e ribeiros não é somente água: representa também o sangue dos nossos antepassados.
Se lhes vendermos a terra, deverão recordar-se que ela é sagrada e, ao mesmo tempo, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada e que cada reflexo nas claras águas dos lagos conta os acontecimentos e memórias das vidas das nossas gentes.
O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.

Os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede; são sulcados pelas nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Se lhes vendermos a terra, deverão recordar-se e ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também o são deles, e que, portanto, devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão.

Sabemos que o Homem Branco não compreende o nosso modo de vida. Ele não sabe distinguir um pedaço de terra de outro, porque ele é um estranho que chega de noite e tira da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga e, uma vez conquistada, ele segue o seu caminho, deixando atrás de si a sepultura de seus pais, sem se importar com isso!

Rouba a terra aos seus filhos: também não se importa! Tanto a sepultura de seus pais como o património de seus filhos são esquecidos. Trata a sua Mãe, a Terra, e o seu Irmão, o Firmamento, como objectos que se compram, se exploram e se vendem como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devorará a terra, deixando atrás de si só o deserto.

Não sei, mas a nossa maneira de viver é diferente da vossa. Só de ver as vossas cidades entristecem-se os olhos do Pele Vermelha. Mas talvez seja porque o Pele Vermelha é um selvagem e não compreende nada.

Não existe um lugar tranquilo nas cidades do Homem Branco, não há sítio onde escutar como desabrocham as folhas das árvores na primavera ou como esvoaçam os insectos.

Mas talvez isto também seja porque sou um selvagem que não compreende nada. Basta o ruído para insultar os nossos ouvidos. Depois de tudo, para que serve a vida, se o homem não puder escutar o grito solitário do noitibó nem as discussões nocturnas das rãs nas margens dum charco? Nós preferimos o suave sussurrar do vento sobre a superfície dum charco, assim como o cheiro desse mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.

O ar tem um valor inestimável para o Pele Vermelha, uma vez que todos os seres partilham um mesmo alento - o animal, a árvore, o homem, todos respiramos o mesmo ar.
O Homem Branco não parece estar consciente do ar que respira; como um moribundo que agoniza durante muitos dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se lhes vendermos as nossas terras, deverão recordar-se que o ar é, para nós, inestimável, que o ar partilha o seu espírito com a vida que mantém. O vento, que deu aos nossos avós o primeiro sopro de vida, também recebe os seus últimos suspiros. E, se lhes vendermos as nossas terras, deverão conservá-las como coisa à parte e sagrada, como um lugar onde até o Homem Branco poderá saborear o vento perfumado pelas flores das pradarias.

Por tudo isso, consideraremos a vossa oferta de comprar as nossa terras. Se decidirmos aceitá-la, eu porei uma condição: o Homem Branco deverá tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo outro modo de vida. Tenho visto milhares de bisontes apodrecendo nas pradarias, mortos a tiro pelo Homem Branco, da janela de um combóio em andamento.
Sou um selvagem e não compreendo como é que uma máquina fumegante pode ser mais importante que o bisonte, que nós só matamos para sobreviver.

Que seria do homem sem os animais? Se todos fossem exterminados, o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque o que suceder aos animais também sucederá ao homem. Tudo está ligado.
Devem ensinar aos vossos filhos que o solo que pisam são as cinzas dos nossos avós. Ensinem aos vossos filhos que a terra está enriquecida com as vidas dos nossos semelhantes, para que saibam respeitá-la. Ensinem aos vossos filhos aquilo que nós temos ensinado aos nossos, que a terra é nossa mãe. Tudo quanto acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, cospem em si próprios.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos. Tudo está ligado, como o sangue que une uma família. Tudo está ligado. Tudo o que acontece à terra acontecerá aos filhos da terra. O homem não teceu a rede da vida, ele é só um dos seus fios. Aquilo que ele fizer à rede da vida, ele o faz a si próprio.

Nem mesmo o Homem Branco, cujo Deus passeia e fala com ele de amigo para amigo, fica isento do destino comum. Por fim talvez sejamos irmãos. Veremos isso. Sabemos uma coisa que talvez o Homem Branco descubra um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar nesta altura que Ele vos pertence, do mesmo modo como desejam que as nossas terras vos pertençam; porém não é assim. Ele é o Deus dos homens e a Sua compaixão reparte-se por igual entre o Pele Vermelha e o Homem Branco. Esta terra tem um valor inestimável para Ele e, se a estragarmos, isso provocará a ira do Criador. Também os Brancos acabarão um dia, talvez antes que as demais tribos. Contaminem os vossos leitos e uma noite morrerão afogados nos vossos próprios detritos.

Contudo vocês caminharão para a vossa destruição cheios de glória, inspirados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e que, por algum desígnio especial, vos deu o domínio sobre ela e sobre os Peles vermelhas. Esse destino é um mistério para nós, pois não percebemos porque se exterminam os bisontes, se domam os cavalos selvagens, se saturam os mais escondidos recantos dos bosques com a respiração de tantos homens e se mancha a paisagem das exuberantes colinas com os fios do telégrafo. Onde se encontra o matagal? Destruído! Onde está a águia? Desapareceu!

Termina a vida e começa a sobrevivência!

Por Fim Talvez Sejamos Irmãos. Ed. Comissão Nacional do Ambiente, Lisboa 1977.

[Citado no postal OS RIOS SÃO NOSSOS IRMÃOS, 3 Março 2008 - Categoria A ÁGUA].

À ÁGUA

am.ma 27/02/0000 @ 00:00

Ninguém ouve a canção, mas o ribeiro canta!
Canta, porque um alegre deus o acompanha!
Quantos mais tombos, mais a voz levanta!
Canta, porque vem limpo da montanha!

Espelho de céu, é quanto mais partido
Que mais imagens tem da grande altura.
E quebra-se a cantar, enternecido
De regar a paisagem de frescura.

Água impoluta da nascente,
És a pura poesia
Que se dá de presente
Às arestas da humana penedia...

Miguel Torga, Odes.

[Citado no postal O RIBEIRO, 27 Fevereiro 2008 - Categoria A ÁGUA].

TODAS AS FLORES SÃO FLORES

am.ma 30/01/0000 @ 00:00

O Gladíolo foi o primeiro a chegar ao jardim do Rapaz de Bronze.
- Então e a festa? - perguntou o Rapaz de Bronze.
- Já se organizou a Comissão de Organização.
- Óptimo!
- O tempo está bom! Nem uma aragem de vento arranjei para me trazer aqui.
- Vais ter uma noite maravilhosa para a tua festa - disse o Rapaz de Bronze.

[...]

- Eu pensava que se convidavam todas as flores - disse a Rosa.
- Temos de escolher as flores mais bonitas, as mais célebres, as de melhor qualidade - explicou a Tulipa.
- Todas as flores são bonitas - disse o Rapaz de Bronze.
- Mas há algumas flores que não são bem flores - disse o Gladíolo.
- Todas as flores são flores - respondeu o Rapaz de Bronze muito zangado.
- Ah? O Tojo e a Urze também são flores? - perguntou a Begónia.
- O Tojo e a Urze - disse o Rapaz de Bronze - são flores maravilhosas porque todas as flores são maravilhosas. Mas um Tojo e um Nardo são diferentes e é por isso que o mundo é tão bonito. Eu sou o rei do jardim. Quero que sejam convidadas todas as flores.

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Rapaz de Bronze.

[Citado no postal TODAS AS FLORES SÃO BONITAS, 30 Janeiro 2008 - Categoria QUADROS].

A HISTÓRIA DA ÁRVORE

am.ma 07/01/0000 @ 00:00
Rosinha concentrou-se, pensou um bocadinho, e começou a história...
[...]

A chuva riu.
A semente perguntou, amedrontada:
– Como é que a senhora sabe de tudo?
– Ora, meu bem, eu sou uma velha chuva, cansada de ser chuva.
– Para onde a senhora vai agora?
– Agora? Vou, juntamente com as minhas irmãs, criar uma nascente que, com o correr dos anos, virará um grande rio. Durante muito tempo serei esse rio, até que um arco-íris me beba e me transforme de novo em chuva...
– E a senhora fica sendo chuva a vida inteira?
A gota d'água sentiu-se triste e respondeu, com a voz emocionada:
– Um animal poderá me engolir e, então, tudo se acabará. Depois disso não poderei dizer mais nada. Volto então aos meus velhos pensamentos: Não sei nunca por que nasci e nem para onde irei. Afinal, nós todos somos assim...
A chuva calou-se.
– A senhora deve estar muito cansada, não?
A semente havia notado que a chuva chorava e tentava disfarçar, enquanto respondia:
– Um pouquinho, mas agora posso dormir umas horicas antes de prosseguir.
– E eu?
– Que é isso, meu bem? Você está tremendo toda!
– Ah! Dona Chuva, estou com tanto medo de nascer...
– Bobagem... Vamos, eu ajudo!
Sua angústia renasceu e sua voz saiu meio trêmula:
– Mas eu não sei por onde nascer...
Os dedos de Dona Chuva apalparam seu dorso e pararam em determinado ponto.
– Deve ser aqui. A casca está bem fininha; vou amolecer mais e você fará também um esforço...
Não disse mais nada. Foi contendo a respiração. Mais e mais. E ainda mais. Sentia que ia estourar. Devia estar quase roxa de tanto esforço. Alguma coisa se lhe abalava por dentro; deviam ser os bracinhos de folha.
A chuva disse novamente:
– Tente outra vez.
Forçou o ar de dentro e uma grande dor a estremeceu. Parecia que se rachava a casca, de alto a baixo. A ponta de um de seus braços projetou-se para fora.
– Ai! Que dor!... Ui! Que frio!...
A chuva riu grosso:
– É assim mesmo. Agora o outro bracinho.
Foi puxando o outro braço da folha e dessa vez já não sentiu doer tanto. E, mesmo, a vida fora da casca assemelhava-se a uma nova aventura; sentiu, então, curiosa sensação.
O contato de seu corpinho fraco, miudinho, com a terra úmida enchia-lhe a vida de um novo encanto.
A chuva bocejou:
– Viu, minha filha? Não é assim tão difícil nascer.
– Mas dói um pouco...
– Se não doesse a vida não teria preço. Agora trate de caminhar. Você precisa sair, andar, perfurar a distância que existe até ao outro lado. E como você não tem prática, vai levar todo o resto desta noite... Agora, adeus... vou cochilar.
A chuva reclinou-se para um lado e antes de dormir de todo ainda falou com ternura:
– Você vai achar a vida linda... sempre depois que chove...
Bocejou mais forte e parece que nem escutou todo o agradecimento do seu coração vegetal:
– Obrigada, Dona Chuva...

José Mauro de Vasconcelos, Rosinha Minha Canoa.
[Citado no postal A CHUVA RECLINOU-SE PARA UM LADO, 7 Janeiro 2008 - Categoria A ÁGUA].